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Nigéria nega sequestro de cristãos e é acusada de ‘mentir’

21 DE JANEIRO DE 2026

Suspeitos de integrar milícias Fulani no estado de Kaduna, no norte da Nigéria, invadiram três cultos cristãos simultaneamente no último domingo, em um episódio que líderes religiosos e comunitários descrevem como o maior sequestro em massa de agricultores cristãos já registrado na região.

As estimativas sobre o número de sequestrados variam entre 100 e 177 pessoas, em meio a versões conflitantes e à negativa inicial das autoridades estaduais. Os ataques ocorreram na vila de Kurmin Wali, no distrito de Kajuru, sul de Kaduna, durante celebrações religiosas realizadas pela manhã.

O deputado estadual Usman Danlami Stingo, que representa a área, afirmou à Associated Press que 177 pessoas foram sequestradas, das quais 11 conseguiram escapar. Já o deputado federal Felix Bagudu, após reunião com autoridades locais, alegou ao Truth Nigeria que o número provavelmente não ultrapassa 100.

O presidente da Associação Cristã da Nigéria (CAN) para o norte do país, Joseph John Hayab, declarou na segunda-feira que 172 cristãos foram sequestrados em três igrejas, com nove fugas confirmadas. Segundo ele, líderes locais relataram que homens armados invadiram os templos durante os cultos, fizeram fiéis reféns e os levaram para áreas de mata.

Relatos de sobreviventes indicam que os ataques ocorreram no bairro de Afago, a cerca de 13 quilômetros ao sul da cidade de Maro. Testemunhas disseram ao Truth Nigeria que a região abriga campos improvisados onde centenas de reféns são mantidos. Os agressores foram descritos como milicianos Fulani fortemente armados, alguns vestindo túnicas e turbantes pretos, outros usando uniformes camuflados semelhantes aos do Exército nigeriano, porém desgastados.

Uma fiel da ECWA que conseguiu escapar relatou que os homens chegaram atirando por volta das 10h, ordenaram que todos se deitassem e passaram a retirar os fiéis à força. Ela afirmou ter fugido com o filho de 10 anos por uma janela enquanto os sequestradores conduziam os demais para fora.

O pastor Kenneth Ononeze, também do estado de Kaduna, classificou o episódio como alarmante, questionando a resposta das autoridades federais e estaduais. “Eles ainda negam que um genocídio cristão esteja acontecendo?”, indagou. Já o reverendo Gideon Para-Malam afirmou que os alvos foram uma igreja católica, uma congregação da ECWA e uma igreja Querubim-Serafim. Segundo ele, idosos e pessoas com deficiência foram poupados.

Apesar dos múltiplos testemunhos, a polícia do estado de Kaduna negou oficialmente os sequestros. O comissário Muhammad Rabiu declarou que não havia registros do incidente e classificou os relatos como “mentira completa”. Autoridades locais chegaram a afirmar à imprensa que as informações eram alarmistas.

A Christian Solidarity Worldwide (CSW), no entanto, informou ao The New York Times que possui uma lista preliminar de reféns, que seria divulgada após contato com familiares. Integrantes da organização relataram que, ao tentarem chegar à vila, foram impedidos por bloqueios militares e governamentais. Mesmo assim, conseguiram falar por telefone com fiéis que confirmaram que homens armados estavam reunindo membros das igrejas e forçando-os a seguir para o deserto.

O chefe tradicional da vila, Ishaku Dan’azumi, disse à Associated Press que escapou dos sequestradores e confirmou os ataques. Um grupo local de direitos humanos, o Congresso de Cidadãos Ativos de Chikun/Kajuru, também divulgou uma lista de reféns, cuja verificação independente ainda não foi possível.

O episódio ocorre em um contexto de pressão internacional crescente sobre a Nigéria. Em dezembro, os Estados Unidos realizaram ataques aéreos contra alvos atribuídos ao Estado Islâmico no estado de Sokoto, em coordenação com o governo nigeriano. Além do Estado Islâmico, atuam no país grupos como Boko Haram, ISWAP e facções associadas à Al-Qaeda.

Segundo o Observatório da Liberdade Religiosa na África (ORFA), milícias Fulani e grupos armados associados mataram mais civis na Nigéria entre 2019 e 2023 do que Boko Haram e ISWAP juntos. O relatório aponta quase 24 mil civis mortos por esses grupos em quatro anos, indicando que a Milícia Étnica Fulani representa hoje um dos principais vetores de violência no país.

Dados da Portas Abertas reforçam esse quadro. Na Lista Mundial de Perseguição 2026, a Nigéria aparece como o país onde mais cristãos foram mortos por causa da fé entre outubro de 2024 e setembro de 2025: 3.490 vítimas, o equivalente a 72% do total mundial no período. O país ocupa o 7º lugar entre os mais perigosos para cristãos.

Especialistas observam que, embora a maioria dos Fulani não adote posições extremistas, segmentos radicalizados seguem uma estratégia semelhante à de grupos jihadistas, com ataques direcionados a comunidades cristãs, terras agrícolas e símbolos religiosos.

De acordo com o The Christian Post, líderes locais afirmam que a violência é alimentada por disputas por terra, avanço da desertificação e pelo desejo de impor o islamismo em regiões de maioria cristã.